A MEI misturou conta pessoal e a sensação é de aperto: o PIX entra, o DAS sai, o mercado passa no mesmo cartão e ninguém sabe o que é o negócio. Este texto é o modo emergência. Não começa com “abra outra conta amanhã”. Começa com o extrato que você já tem.
Isto não é conselho fiscal/contábil — fale com seu contador se houver DAS atrasado, dívida ou dúvida de enquadramento. Aqui é ordem operacional para parar de piorar a mistura.
O mapa completo de classificação está em conta PF e PJ juntas: como separar sem planilha. Use os dois textos juntos: este para as próximas 48 horas, aquele para o hábito do mês.
O que “misturou” quer dizer na prática
Misturar não é um crime narrado no extrato. É uma lista de sintomas:
- Cliente paga no mesmo PIX em que você paga a escola e o streaming
- Você não sabe se o mês do ofício sobrou
- Qualquer gasto “urgente” sai do mesmo saldo
- O contador pede números e você manda print
- A conta nova no CNPJ, se já existe, está vazia porque o PIX antigo é o que o cliente já tem
O objetivo das próximas horas não é perfeição fiscal. É parar de decidir no escuro. Classificar o que já aconteceu neste mês. Combinar uma retirada. Só então discutir banco novo.
Passo 1: congele decisões grandes por 48 horas
Não contrate máquina parcelada, não antecipe recebível “para respirar” e não zere o cartão pessoal com um PIX do faturamento sem etiqueta. Cada um desses movimentos, sem classificação, cava o buraco.
Pague o que vence (aluguel do ponto, DAS combinado com o contador, fornecedor que corta insumo). Anote. Não “invista” em reforma, estoque extra ou curso enquanto o extrato for um novelo.
Passo 2: importe o extrato deste mês
Digitar de memória é como inventar. Importe o arquivo ou a lista do banco e trabalhe em cima do que o banco já registrou. O guia de importar extratos explica a lógica: classificar é mais rápido do que relançar.
Se o banco só oferece PDF, use o que tiver e lance os totais por dia no começo — depois refine. O pecado é não começar.
Passo 3: três etiquetas, nada mais fino ainda
Não crie vinte categorias no primeiro dia. Use só:
- PJ — ofício (cliente, ponto, insumo, imposto, ferramenta)
- PF — casa e vida
- Transferência — você para você (retirada ou aporte)
Em dúvida, marque “revisar” e siga. Um mês 80% etiquetado já responde se o ofício está pagando a casa ou o contrário.
A tabela de exemplos (PIX, DAS, mercado, aluguel, retirada) está no guia PF e PJ. Não copie imposto: copie o método.
Passo 4: calcule um número feio e útil
Some receita PJ do mês (o que o cliente pagou). Some despesa PJ (ponto, insumo, imposto, ferramenta). A diferença antes da retirada é o que o ofício gerou. A retirada é o que a pessoa física recebeu. O que sobra depois da retirada é reserva do negócio — ou o rombo.
Se o número for negativo, a casa está comendo o ofício ou o ofício não cabe no ponto. São problemas diferentes. Contratar anúncio no Instagram não resolve o primeiro.
Passo 5: combine uma retirada redonda
PIX avulso o mês inteiro “para o Uber” é mistura contínua. Combine um valor redondo (mesmo que baixo) e trate o resto do ofício como intocável até o próximo fechamento. Se faltar na casa, a conversa é reduzir a casa ou aumentar o ofício — não “só mais um PIX”.
Pró-labore formal versus retirada de MEI é definição com o contador. No painel, o movimento é transferência. Detalhes em pró-labore ou retirada: como lançar.
Passo 6: só agora fale em segunda conta
Conta no CNPJ ajuda quando o hábito de classificar já existe. Sem hábito, o cliente continua pagando no PIX antigo e a conta nova vira enfeite. Avise clientes aos poucos, mude o cartão da maquininha, mantenha o PIX antigo visível no painel até secar.
Duas contas exigem lançar a ponte: CNPJ → CPF como retirada, CPF → CNPJ como aporte. Esquecer a ponte é a mistura 2.0.
O que não fazer nesta semana
- Apagar o histórico do app do banco para “não ver”
- Pedir empréstimo pessoal para cobrir DAS sem registrar a parcela no caixa futuro — veja controle de empréstimos
- Chamar tudo de “investimento”
- Prometer ao contador uma planilha que você não vai manter
- Misturar o salário do cônjuge no mesmo bolo sem etiqueta
Um recorte honesto de 15 minutos por dia
Enquanto o mês não fecha, abra o extrato no fim do dia e etiquete o que entrou. Não deixe 200 linhas para a madrugada do dia 30. MEI sozinha no salão já está cansada; o ritual tem que caber em quarto de hora.
Categorias recorrentes (aluguel, DAS, mercado no mesmo supermercado) ficam óbvias na segunda semana. Aí o fechamento de 30 minutos do guia PF/PJ volta a ser realista.
Quando chamar o contador neste enredo
Chame se DAS está em atraso, se há cobrança, se você mudou de faixa, se vai contratar, se vai emitir nota pela primeira vez, se tem sócio de fato sem contrato. O sistema não resolve obrigação acessória. Ele evita você chegar na reunião com um print e um palpite.
Ferramenta
O Gestão Bem Financeiro deixa marcar PF, PJ e transferência no mesmo painel, importar extrato e ver o mês sem planilha paralela. Não é mágica de banco: é etiqueta com disciplina.
A mistura não se desfaz por vergonha. Se desfaz por classificação. Comece no lançamento de hoje.